terça-feira, 23 de julho de 2013

Anna e o Espelho



Anna estava mais uma vez trancada em seu quarto sozinha, ali diante do espelho pensava: "O que há de errado comigo?". Anna sempre se sentia sozinha, era tímida, coitada. "Talvez o problema seja a timidez, as pessoas não gostam de mim por ser tímida!"
Deitou na cama e caiu no sono, satisfeita por detectar seu defeito. No dia seguinte se esforçou, sorriu para todos, desejou bom dia, estava disposta  à largar a maldita timidez. Nada adiantou, as pessoas ainda se mantinham longe da pobre menina.
Com lágrimas nos olhos o reflexo de Anna a encarava do outro lado do espelho: "Por quê?", ela perguntava entre soluços.
Anna cresceu sozinha, por toda sua vida todos estavam demasiadamente ocupados para se darem conta dela. Na escola era aquela quieta no fundo, se faltava aula ninguém percebia. Passava seu tempo encolhida no canto, não adquiriu o talento para socializar. Excluída, era sempre a última a ser escolhida para o time de educação física, quando cansava era só sair da quadra que ninguém notava.
A menina chegou a passar algum tempo acreditando que era invisível, "Sim, só podia ser, está então explicado, ninguém é capaz de me ver!". É claro que essa teoria se desfez depois de alguns meses.
Apesar de distante, Anna tinha muito apego por todos, ela desenvolveu uma estranha carência que era saciada ao observar as pessoas ao redor. A menina podia nunca falar com ninguém e ainda assim gostar, se apegar ou odiar os outros. 
É claro que ao longo do tempo Anna conheceu pessoas, é claro que trocou algumas palavras e viveu momentos normais. Mas no fim, todos sempre a largavam, e lá ia Anna chorar em frente ao espelho. "São meus olhos, eles são castanhos... Se fossem azuis talvez as pessoas não me abandonariam!", mais uma vez Anna inventava uma desculpa qualquer para explicar sua solidão.
No dia seguinte ao se olhar de perto ela perceberia que a culpa não eram dos olhos, não, pessoas de olhos castanhos têm amigos. Talvez a culpa seja da pouca altura, sim, tão baixinha que passava despercebida... Quem sabe a culpa seja do nariz, nossa como ele é estranho! Não, não, com certeza do cabelo, onde já se viu alguém ter amigos com esse cabelo desgrenhado?
Entre uma desculpa e outra Anna sofria sem saber o porquê das pessoas sempre irem embora. Começou a achar que ela era chata, ou gorda, talvez muito magra, ou sem graça, com certeza era desinteressante.
Hoje, mais uma vez, lá estava Anna em frente ao espelho. Diferente das outras vezes, seu reflexo sorriu, a menina olhou atônita, "Um sorriso?". O reflexo então lhe disse: "Ora pequena, não há nada de errado contigo, as pessoas é que são defeituosas. Te abandonam por um erro delas. Olhe só o mundo menina, uns passando por cima dos outros, levando vidas fúteis e sem nenhum sentido. Sabe como são as pessoas, bom, elas... São humanas demais, nasceram todos com defeito de fábrica, engrenagens enferrujadas. Um pouco de óleo e pronto, um dia estarão consertados. Agora enxugue essas lágrimas, você nunca será perfeita e nem ninguém será. Viva a tua vida menina, algumas poucas pessoas te cativarão e mesmo imersas em defeitos bastarão para te alegrar. Felicidade de verdade você só encontrará aí no teu peito, o resto... ah, é só o resto pequena."
Naquela noite, Anna dormiu feliz, afinal, o problema não era com ela. Anna não sabia, mas o que o espelho lhe confidenciou é aquilo que as pessoas descobrem só depois de muitos anos e de muito dinheiro gasto em terapia. Anna aos 10 anos aprendeu a ser feliz, mesmo que sozinha.

(Luíza Gallagher)

sábado, 20 de julho de 2013

Dia do Amigo


Hoje é o dia do amigo. Entre tantas datas comemorativas, muitas até sem o mínimo nexo, tem essa que realmente merece ser comemorada.
Acordei pensando em mil maneiras de iniciar um texto que estivesse à altura dos homenageados e que descrevesse pelo menos um pouco do que os meus amigos significam para mim. Porém, percebi que não importa o quanto eu quebre a minha cabeça, meu texto nunca expressará o que sinto. Como transferir pro papel sorrisos, lágrimas e até um pôr do sol após um dia na praia? Como colocar em palavras todas as brigas e reconciliações? É complicado explicar a preocupação, a ausência, a saudade, a afinidade e o amor despretensioso que ronda as amizades.
Nem mesmo o dicionário com sua infinidades de definições consegue traduzir de fato o que é uma amizade. Amigo não está no papel, não é alguém que se possa definir, amigos fogem às regras.  Alguns são de infância, outros recentes, alguns te conhecem como ninguém, outros de fazem rir até quando se deseja chorar, há aqueles que confortam o seu pranto e consolam o seu choro. Alguns você encontra todo dia, outros faz uma eternidade que não os vê, há os amigos virtuais, ou intelectuais, os racionais e os passionais. Há os modernos, os antiquados, os recatados, os emotivos e os que transformam a vida numa festa sem fim. Os conselheiros, os amorosos e até os criativos. Há amigos que às vezes não reconhecemos e outros que viram verdadeiros parceiros de vida.
Existem amigos de todos os tipos e não se tem como medir a importância de cada um. Como transformar numa poesia as pessoas que são sua vida? Amigos são uma bênção, em alguns casos um carma, ou apenas o destino… Amigo é a família que escolhemos. Com defeitos e qualidades únicas assim é formada a verdadeira amizade.

Feliz dia dos amigos!


(Luíza Gallagher)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Últimos Flashes de Ahmed Samir Assem

Acordou com o toque distante do despertador, sentou-se na cama esfregando os olhos e afastando a preguiça matinal. Foi para o banheiro e viu sua imagem turva no espelho, cara de sono ainda. Um banho rápido e um café da manhã. pegou a câmera e seguiu para mais um dia de trabalho. Seu nome? Ahmed Samir Assem, fotógrafo. Chegou na redação do jornal, recebeu a missão de cobrir o confronto do país. Lá se foi o egípcio munido da sua câmera pra mais um trabalho rotineiro.
Gritos, protesto, tiros. Ahmed registrou tudo que seus flashes foram capazes de captar. De repente um atirador no alto de um prédio começa a mirar nas pessoas, o fotógrafo filma cada movimento do atirador. Ao fundo gritos dos atingidos, no chão, sangue derramado das vítimas. O atirador se vira, como se pousasse para a câmera, Ahmed tem um rápido flash mental de tudo o que passou nesses 26 anos de vida, o atirador o mira, o fotógrafo pensa: "Será que chegou a minha vez?", o gatilho é puxado, a imagem da câmera desfoca e Ahmed tomba no chão sem vida. Agora, os olhos sem vida de Ahmed refletem a mesma imagem turva que o espelho lhe mostrava mais cedo.
Antes do início daquela manhã um homem dormia tranquilamente e sonhava com flores, um lugar calmo, pessoas queridas, risadas infantis, brincadeiras de roda. Um homem acordou com o toque do despertador mal sabendo que era o soar de uma bomba relógio. Seu tempo estava sendo contado, aquelas eram suas últimas horas.



(Luíza Gallagher)

terça-feira, 9 de julho de 2013

Um Chato na Porta



Estava eu sozinha em casa assistindo ao meu programa favorito de TV, quando de repente toca a campainha. Levanto do sofá resmungando e sou obrigada a abrir a porta, pois não tenho olho mágico e mesmo que tivesse acho que não adiantaria em nada. Olho mágico de verdade seria aquele que conseguisse dar sumiço nas visitas indesejadas, e não apenas um buraquinho que nos deixa ver o chato que está na porta.
O pior é que a campainha sempre toca quando não queremos atender e geralmente são pessoas que realmente não queremos ver, como por exemplo, aqueles vendedores insistentes que nunca se contentam com um não. Abri a porta e lá veio um deles invadindo minha sala, me empurrando milhares de mostruários.
O pior são os sorrisos e o tom feliz que eles usam, como se eles estivessem ali para salvar a sua vida. Tentei argumentar com o homem, dizer que não precisava de nada, mas ele insistia, disse que se eu olhasse os catálogos eu iria acabar encontrando algo de que precisava. Eu falei que não queria ver nada, ele respondeu que valeria a pena, sem compromisso. Mas eu não queria ter nem o compromisso de ver, porém ele me empurrava os papéis dizendo que não custava nada, olhar é de graça.  Mas afinal, de graça não era, pois eu estaria perdendo meu tempo, e como dizem: tempo é dinheiro.
Foi então que ele começou a tentar me atrair por promoções, descontos e sorteios, olha só, eu poderia concorrer a vários prêmios, de carros e casas até adesivos e imãs de geladeira, imperdível! Eu disse-lhe que quanto mais ele insistisse mais eu iria desistir, porém algo nele me levou a crer que quanto mais eu desistisse mais ele insistiria. Tem certas pessoas que não possuem limites, não sei como conseguem certos empregos, ou será que conseguem certos empregos exatamente por não terem limites?
A minha vontade era de dar com a porta na cara dele, mas apesar de tudo, a minha gentileza não deixava. O sujeito me fez olhar mais de quinhentos catálogos e resolveu ligar uma enceradeira elétrica “último modelo” na tomada. Foi então que me aproveitei da oportunidade, mostrando que meu piso era revestido por carpetes. Achei que finalmente tinha me livrado dele, afinal, era uma boa desculpa. Mas eis que ele tinha uma carta na manga, me mostrou um aspirador de pó “de alta tecnologia”, um daqueles que eu “não poderia viver sem” e com um desconto de 50%. Eu enfim fui vencida, não havia mais armas para o combate, ele havia vencido. O olhei com a tristeza dos derrotados e ele abriu ainda mais o sorriso vendo que havia enfim quebrado minha resistência.  Ao fechar a porta corri para frente da TV, mas o programa já havia terminado...  E agora, o que eu faço com dois aspiradores em casa?

(Luíza Gallagher)

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Poeminha pro Moço Bonito

Moço bonito andando na rua,
Moço bonito deitado na cama
Sentado, parado
Conversando ou calado
Moço do sorriso encantador
Que me faz sonhar
Moço do abraço protetor
E do doce olhar
Moço bonito que me enlouquece
Que invade meus sonhos
E que com um abraço me aquece
Moço tão bonito que é difícil explicar
Meu moço mais que lindo
Como é fácil te amar ♥

(Luíza Gallagher)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Príncipe Canalha



Conto-lhe agora uma história pós moderna, onde o "Era uma vez" já se perdeu e o final feliz nunca chegará, um conto de fadas onde fadas não há. Essa é a história de um príncipe desencantado que no alto de uma torre, o safado deixou sua princesa abandonada. Pelo reino vagou e uma pobre dama psicótica ele encontrou. Com ela riu, se divertiu e oras, até mesmo dormiu. Depois de tudo terminado para seu palácio foi o coitado. Mal sabia ele que a louca psicótica achava que agora ele a pertencia e não mais importava o que ele lhe dizia. O príncipe canalha seguiu seu caminho e outras belas damas seduziu com um bom copo de vinho. Apesar da bela princesa aprisionada e das damas conquistadas a psicótica ainda por ele era apaixonada. Não conformada estava com sua situação e do príncipe exigia o coração. Todas as noites o pobre canalha a ela deve voltar e apaixonadamente se declarar após de todas as conquistas se explicar. Quando ela se sentia ameaçada, a rival para um duelo desafiava. Munida de duras palavras a louca disparava. Sem juízo ela se gabava de ser a preferida, aprisionada a princesa sorria: "Pobre louca a sonhar, presa ou não é para cá que o canalha irá voltar."
Certa ou errada a princesa a espera do príncipe continuava. Desvairada a psicótica a tudo espreitava. As damas do reino se deixavam conquistar, que mal havia com um príncipe uma noite se deitar? Sem esperar casamento com o canalha só queriam um momento. Mas a psicótica ficava a ameaçar. Cuidado jovens essa louca pode até matar. 

(Luíza Gallagher)

terça-feira, 2 de julho de 2013

Pôr do Sol

http://imagens-de-fundo.blogspot.com/2011/05/imagem-de-fundo-vista-sobre-cidade-ao_19.html

Na correria cotidiana não paramos para pensar direito em um motivo para a vida, apenas vivemos. Somos como robôs programados para se levantarem e fazerem o que tem que ser feito. Seguimos assim, acordamos, vamos para a escola, depois faculdade, trabalho e quando percebemos o dia acabou, a vida passou, estamos velhos demais, cansados demais e só nos resta sentar e ver o sol se pôr no horizonte. A vida é breve. Vivemos o hoje, mas para quê? A maioria das pessoas acorda ao soar do despertador sem se dar conta do porquê de abrir os olhos. Todos nós temos motivos que nos impulsionam a seguir: trabalho, amor ou mesmo a própria vida que se ergue sobre nós com algumas maravilhas e alguns desafios. Somos poetas construindo um poema de lágrimas e sorrisos a cada minuto. A vida é coisa rara, é coisa bonita, é coisa difícil. Cada um sabe as incertezas que traz no coração, e cabe a nós descobrirmos o que nos faz levantar e viver. Ao final do dia, quando nos deitamos exaustos na cama são esses motivos que embalarão nossos sonhos. Eu acordo para entender um pouco o mundo que me cerca, e você? Por que você acorda?

(Luíza Gallagher)

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Nascer do Sol

http://zoomcarioca.tumblr.com/post/27713372685/o-amanhecer-no-centro-do-rio-de-janeiro-imagem


O dia amanhece. No horizonte o sol nasce ainda tímido. O despertador toca ao meu lado, mas o som parece vir de tão longe... Deve ser o sono, tenho que acordar. Levanto-me preguiçosamente como em todas as manhãs. Mais um dia começa. Lá fora, em algum lugar ao longe alguém ainda se agarra ao último minuto de um sonho bom. Cheiro de café fresco se espalha pelo ar. Aos poucos as ruas ficam abarrotadas de gente, o burburinho vai crescendo e a população enfim desperta ziguezagueia ao longo das avenidas. Ruas cheias de estranhos. O que essas pessoas pensam? O que esperam do seu dia? O que faz com que acordem para encarar a vida? Milhares de pessoas se cruzam, se esbarram. Algumas dizem um rápido "Bom dia", outras passam tão rápido que pronto, já se foram... E nesse encontro e desencontro fica a sensação de vazio, de ser apenas um na multidão. Ninguém se importa se dormi bem e nem o porquê eu estou aqui, viva. Posso estar mais uma vez falando besteira, posso estar pensando demais, divagando mais que o necessário... Mas nessa correria cotidiana acabamos esquecendo o porquê vivemos, o para que abrimos todos os dias nossos olhos e resolvemos seguir em frente. Qual será o objetivo que nos move? Será que alguém se pergunta isso? E você já parou pra pensar o porquê você acorda?

(Luíza Gallagher)